Minha terra tem palmeirasOnde canta o sabiáMas não tem um céu azulCeleste como el de alláO céu azul - esse era um dos meus motivos pra ficar (eu tinha vários). Em São Paulo você nem vai lembrar de olhar pro céu, dizia ela, em São Paulo não tem graça.
De volta a São Paulo, eu olho pro céu, no mínimo, duas vezes ao dia: por trás da cúpula da igreja de Santa Cecília e pela janela da cozinha do décimo andar. Não vou dizer que não tem graça; não sei se é o alívio de sair à rua depois de uma eternidade dentro do metrô, sei que já vi, com os pés no chão, muitos céus lindos, em dias ensolarados de inverno. Mas lá de cima, mais de perto, é outro céu: o horizonte é uma faixa larga de marrom poluição em
degradê, que os prédios altos escondem quando a gente tá no baixo.
Em Santa Fé - e acho que em todas as cidades argentinas que conheci -, não importava a altura do mirante: o céu era sempre azul celeste.
Em Santa Fé, o que mais me impressionava era a ausência de chuva. Eu vi chover umas quatro vezes em quatro meses, e podia ficar várias semanas sem limpar o quarto que não tinha crises de rinite alérgica como as que tenho aqui, diariamente. Eu vi chover umas quatro vezes e não lembro de nenhuma em que a chuva durasse semanas inteiras, como as da terra da garoa, que atualmente suporta dias seguidos de chuva forte, ainda que a impermeabilidade do asfalto não os suporte.
Em Santa Fé quase não tinha dia nublado. As nuvens surgiam não sei de onde, branco-acinzentando o azul celeste do céu. Então chovia. Chovia e logo a vida voltava ao normal: com céu azul celeste e vento - vento norte ou vento sul, dependendo da estação.
De volta a São Paulo, os dias nublados me chateiam e preocupam duplamente. Além de gostar do azul celeste, eu prefiro andar com os pés no chão, sem correr o risco de perder a cabeça nas nuvens.